Saturday, February 25, 2006

Ídolo


Não resisti a esse post. Eu e Hotel Básico temos nos dedicado a pesquisas cada vez mais complexas, contundentes e definitivas sobre o exuberante universo das crenças, seitas, objetos ritualísticos, tudo visando a elaboração de um protótipo para um messias perfeito, que irá nos tirar da miséria para todo o sempre (e não nos roubará porque iremos mantê-lo devidamente drogado após a lavagem cerebral, que fará com que acredite que o estrelato é que importa, dinheiro não). Nesses pequenos "workshops de imersão" (quem inventou isso é outro iluminado) encontramos essa figura, de acordo com Hotel, um misto de Hebe Camargo com Elvis (confiram o figurino) renascido das trevas, citado em biografias não-autorizadas como "um paranormal farsante". Farsante ou não, de bobo não tem nada. Criou o 0900, com a ligação custando R$4,94 por minuto no início da década de 90. Cada fiel era mantido por, no mínimo, seis minutos na linha, certamente por alguma ovelha muito bem treinada. Ao final do dia, totalizava R$ 300 mil de lucro só em telefonemas. Walter é o cara. Hoje tem 73 (74 em 9 de março, obviamente só poderia ser pisciano, vagabundo, mentiroso e chorão - ah, sim Barbie mutante, antes que me peças, ladrão também) e uma conta que realmente deve beirar a paranormalidade.

Wednesday, February 22, 2006

Razões

Demorou, mas a escrava branca, enfim, deixará o tronco e buscará refúgio no oásis de concreto. Me ausentarei em razão de férias.
Talvez volte aqui, talvez não, talvez o blog desapareça, talvez não.
O melhor é que nos últimos dias descobri duas razões para continuar viva, o rabecão e o Carlão do Big Brother.
De resto, Bebê de Rosemary, que é uma mulher de sentenças, diagnosticou que sou uma pessoa "vincular" e, bem, depois disso, o melhor é correr atrás de um vínculo, qualquer que seja. Vou aproveitar o tempo livre.
Fora isso, nunca lamentei tanto não estar em um lugar como no Morumbi segunda-feira passada. Foi lindo, ainda que tenha doído um pouco, quase muito, na verdade. "Ainda somos um, mas já não somos os mesmos, ferimos um ao outro" cantava ele, em inglês, obviamente. Quase uma facada. Com facas Guinsu, e nos olhos. Tormentas infinitas.
Deixo um abraço a todos (até aos desafetos, adoro vocês, inclusive o que só usa anoivadoreanimator@yahoo.com.br pra me enviar poesias de Lord Byron sem crédito, mas que é um fofo, tem nome de pipoca - aoki, yuki, yuri, coisa assim). Quem sentir a minha falta, email-me. Nos reencontramos mais tarde.
Ou não.

Sunday, February 19, 2006

Ghory


Espectro relatava a mim e ao Bebê de Rosemary, em um pico qualquer por aí (depois do show dos Stones ou "maracujás de gaveta", como diria o Bebê) dos tempos em que conduzia multidões ao delírio como um mito da música, vocalista da Dr. Ghory e da Panic e também o inspirado autor, juntamente com R. Olsen, dos hits "Vomit" (baseado em fatos reais envolvendo rapaduras e caldo de cana em Tramandaí), "Go to hell", "Anal Intruder" e "Operação genocídio". Estávamos lembrando da época em que participava do festival de bandas do Anchieta, o Fica (acho que em 91), quando a Dr. Ghory fez um show que marcaria gerações por toda a eternidade, com a marcha fúnebre tocada no baixo, muita fumaça, luzes vermelhas, adolescentes em transe mediúnico...e então nosso amigo Espectro era carregado até o palco dentro de um caixão pelos comparsas (Mano Changes e Pancho entre eles, à época do anonimato) e de lá surgia manipulando os bonecos do "Gorgon, the master" e "Scroton, the great", depois saltando do esquife com uma roupa de demônio e vociferando ao microfone. Pouco depois voltava com um novo figurino, o traje de lixeiro que comprou do DMLU, entoando canções que entrariam para a história...tudo ia às mil maravilhas, inclusive o projeto Rural. Até que avistamos um grupo de cinco ou seis seres iluminados que saíam de (nada mais, nada menos) que um rabecão.

Ali o chão começou a ser engolido sob os nossos pés.


Saturday, February 18, 2006

Rural

Saímos ontem, eu e “Biazinha” (coisa mais podre) que a partir de agora passa a assinar aqui como o Bebê de Rosemary. Pequenos frascos, grandes venenos. Um metro e meio de alta periculosidade. Noite quente, geladeira vazia, carteira também, aquela coisa. Morremos na Cidade Bicha, comer um xis-salada no Cavanhas, a lancheria com piso deslizante (eles esfregam os ovos fritos no chão antes de colocar no xis). Começamos a conversa pelos temas clássicos, passando pelos indivíduos com cromossomos xy e milhares de neurônios extras que não se justificam - essa moça tem tiradas ótimas, quando ouço o refrão do funk “Dom Juan” lembro dela - “te amo a noite inteira mas te esqueço de manhã”. Muito instrutivo. Também prosseguimos no debate levantado aqui sobre a desunião feminina, lembrando uma amiga nossa que, como milhares de outras, virou devota da Igreja universal do deus-piça (pai, espero que não estejas lendo), ou seja, arranjou um encosto e saiu de circulação, o que é uma péssima idéia, porque a partir de agora resolvemos decretar o boicote no momento de reintegração à sociedade (porque o pé na bunda sempre vem, cedo ou tarde, e daí repentinamente as amigas voltam a ter utilidade). Mais tarde, falando sobre temas profissionais e convencida por esse pequeno súcubo de que o investimento na modalidade acadêmico-parasitária é o canal, resolvi que tinha de eleger um assunto para desenvolver aquelas teses intermináveis que geram um sem-fim de publicações absolutamente inúteis. Conversa vai, conversa vem, cerveja vai, cerveja vem...pensei em alguma coisa como cultura marginal, movimentos do gueto, essas coisas de pobre tão batidas e que dão um ibope tremendo (estética da fome é hype). Dali partimos pra pesquisa de campo, na verdade uma aventura no mundo selvagem do baixo Bronx, uma visita à subcrosta da humanidade; Bebê com sua blusinha Zara e eu com minhas calças Sommer e Converse Golden, um tênis dourado que, sob o sol, é quase um lança-chamas. Foi justamente ele que provocou a nossa prematura retirada do inferninho, depois que as “mina” na fila do banheiro (que é impossível descrever, nem me atrevo) avistaram toda a magnitude de seu brilho. Resumindo, pouco depois nos encontrávamos do lado de fora do “estabelecimento” onde, presumivelmente, um corpo já estava estirado no chão. Mas não vi sangue no asfalto, então talvez fosse só bebedeira mesmo. Um dia conto os detalhes impublicáveis, quando conseguir cobrar pelas histórias via internet por boleto bancário, cartão de crédito, coisa assim. Mas voltamos pra casa mesmo foi pensando no sonho que passamos a alimentar junto aos demais membros dessa confraria...montar a nossa própria Rural, roxa, com globo espelhado no teto, bancos zebrados, forro de grama artificial e volante de pelúcia. Quem souber de alguma (barbadinha) avisai.

Friday, February 17, 2006

O proprietário

Uma foto do meu dono em sua nova cama. Ele adora posar para fotografias e, como vêem, leva o maior jeito para modelo, apesar de beirar a obesidade mórbida, já que é um completo sedentário (ao menos tem se mantido longe dos cigarros). O único exercício que pratica é me esmurrar, no rosto, todos dos dias lá pelas sete da manhã, quando seu prato continua cheio mas as pedrinhas já não apresentam a mesma crocância, e também porque Norman só bebe água corrente, então devo abrir a torneira, e já. Mas fico feliz porque ainda me permite dividir o apartamento. A irmã, Dot, não aparece na foto, já que ele só aceita que se façam imagens suas em regime de exclusividade. Nada de coadjuvantes.


Thursday, February 16, 2006

Relativo ao episódio anterior...


Eu deveria estar assim quando me aproximei da mesa.
De qualquer forma, é a revanche canina (vejam em "Sam, o cão mais feio do mundo", post de janeiro que definitivamente não caiu no gosto do público, sabe-se lá porque razão).

Hambúrguer

Comprei um hamburguer pra mim, em uma lancheria, vesga de fome (e isso é assunto muito sério). Paguei, peguei minha bandejinha, com hamburguer e um copão de sprite e comecei a perambular atrás de uma mesa. Tenho a noção muito clara de que, sendo uma lancheria espaço público, pagando todos nós da mesma forma pelos nossos lanches (eu pago os meus, pelo menos), pressupõe-se que todos tenham o mesmo direito a sentar para fazer o seu, independente da condição e independente do lugar. Visto que todas as mesas estavam ocupadas, me restavam as opções de engolir o lanche em pé ou dividir, civilizadamente, uma mesa. Perguntei se uma cadeira estava ocupada a duas mulheres sentadas (em uma mesa para quatro). Vítimas de um episódio fulminante de surdez, até me olharam, mas ignoraram solenemente a pergunta. Me questionei se eu não estaria parecendo uma mendiga, cheirando mal, com piolhos pulando na mesa ou as primeiras escaras da lepra aparecendo, coisa assim, mas ao que parecia não era o caso. Então chegou um homem que voltava do banheiro e estava dividindo a mesa com elas e disse "não, fica à vontade, por favor", puxando a cadeira. Percebi os olhares de desgosto trocados entre uma e outra e, segundos depois, de clara reprovação à conduta do homem, por parte de ambas. Nesse instante vagou completamente uma mesa ao lado, mas então achei que repentinamente se tornara irresistível a tentação de tomar aquele lugar onde minha presença era tão pouco prestigiada. Degustei cada sementinha de gergelim do hambúrguer como se fossem as últimas. Da minha vida. Enquanto isso me dei conta de que eram gaúchos (usavam o crachá de participantes de um evento, com o estado indicado). Coincidentemente, o evento que eu havia ido cobrir há pouco, como repórter. Pois as jucas de Gravataí, que foram panfletar no evento que, através do meu trabalho, eu promovi, acharam incômodo dividir a mesa (que nunca pertenceu e nem pertencerá a elas) comigo. Não que eu não me sinta uma juca também, acho que Porto Alegre é um buraco pior ainda, buraco pretensioso é o "ó". Mas a falta de civilidade daquele momento me incomodou. Essas pobres diabas jamais poderão conhecer, por exemplo, a champanharia (original, no Centro) a não ser que alguém serre a mesa comprida de madeira, que é coletiva, pra que somente elas e suas amigas cafonas com roupinhas da Tok (a grife das namoradas de motoboy) e batom Panvel possam sentar.
Levantei, agradeci ao homem - unicamente a ele - e imediatamente pensei em um novo tema para discussões com algum sentido. Porquê diabos mulheres representam a categoria mais desunida da face da Terra?

De fato, eu ainda não dormi o suficiente.

Becky


Acabo de assistir, no Jornal Hoje, uma matéria sobre as meninas que mantêm blogs e fotologs e vão às lojas de departamento pra tirar fotos, nos vestiários, com as roupas e acessórios "emprestados". Lembrei de uma foto que recebi de minha amiga Barbie Mutante, com um acessório certamente menos usual. Ela disse que é a Becky, a Barbie paraplégica. Mas reparem que até a cadeira é fashion.

Ah: eu não tenho nada a ver com isso e não quero nem saber de chiadeira. O post é de inteira responsabilidade dela, e, bem, ao menos já reflete um pouco a natureza de sua personalidade.

Eu disse que ela não tem coração.


Molares


Obrigar os passageiros a tomarem um buzunzinho lotado e embarcar no meio da pista, sem a minhoca plástica, com um sol de 33 graus na moleira.
Trocar os cartões de embarque e fazer o passageiro correr esbaforido para atravessar o aeroporto e tentar pegar o e-tkt correto em meio a uma multidão que esbraveja na boca dos balcões, para, enfim, perder o vôo.
Juntar dois grupos num mesmo avião (porque o das sete foi cancelado e os passageiros já exibiam claros traços psicóticos, então era melhor aglomerar todo mundo no vôo das nove) e anunciar, com uma melodiosa voz: "os assentos são de livre escolha".
Tem coisas que só a Tam faz pra você.
A única vantagem em relação às companhias de baixo custo são aquelas deliciosas balas que grudam nos molares.
Ponho várias na boca (tipo uma a cada dois dentes) e consigo me sentir melhor.

Wednesday, February 15, 2006

Clarabóia

Acho que devo parar por aqui naqueles meus relatos sem pé nem cabeça que só fazem sentido pra mim e a minha panela. Acabo de passar por uma experiência transcedental. Estávamos jantando no lobby do Blue Tree Towers perto do Morumbi. Eu, o editor do caderno de turismo do Hoje em Dia, de BH; Osvaldo (não sei o sobrenome), um repórter porrêta do O Povo, de Fortaleza; e mais dois assessores de imprensa paulistas que nos recebiam para Feira de turismo do Expo Center Norte. Jantar bacana, ambiente bacana (daqueles com paredes de vidro que vertem água, tipo o Hugo Beauty do Iguatemi e muito, muito mármore travertino) quando, de repente, avistamos os seguranças da entrada do hotel com as mãos pro alto. Em questão de segundos, dois elementos invadem a entrada armados. Bem armados, armadíssimos, eu diria. Levaram a bolsa de uma menina que entrava, e que tão cedo não se recuperaria. Ficamos tipo a um metro, um metro e meio dos caras, separados só pelo vidro, com as armas apontadas. Osvaldo correu todo abaixado pra cozinha, que até então nem sabia onde era, e lá permaneceu por muito tempo. Os assessores ficaram estáticos, meio incrédulos, no saguão. Eu corri pro elevador e consegui subir ao quinto andar, onde ficava meu quarto, e fiquei espiando a ação pela sacada. Ao fim de uma breve discussão, e ao avistarem as câmeras – não eram poucas – desistiram. Mas, se entrassem, ia dar merda. Muito grande. Eu já via o meu cadáver deitado no saguão envolto em um mar de sangue e com os olhos vidrados em direção à clarabóia.

Monday, February 13, 2006

Traumas

Já estamos pensando que quem lê isso aqui e não participou - além de não entender nada - deve ficar curioso sobre onde compramos tantos alucinógenos. Mas um dia ainda descrevo em pormenores a personalidade e o histórico de cada um dos envolvidos e uma luz surgirá no fim do túnel.
Tudo começou (nesse sábado) com uma recaída de Barbie Mutante no árido terreno da cleptomania, distúrbio que até já considerávamos superado. Dessa vez, no entanto, ela deixou de lado os acessórios (tem fixação por elementos estéticos, vaidosíssima que é, e cuidem-se todas as lojas de bijoux que o prejuízo é grande) enfiou o pé na jaca e levou foi a cesta do Zaffari (aquelas verdinhas), sabe-se lá porquê. Bem que sempre dizem que, nesse transtorno, a satisfação obtida com essas subtrações limita-se ao momento do roubo; constatei isso depois que a cesta foi retirada do porta-malas e abandonada sem cerimônias no chão da minha cozinha, onde posteriormente foi transformada em cama pelo Norman, meu gato, um felino dourado de médio porte, como eu já disse.
Fizemos o jantar, a quatro (mais espectro e Carrie, a estranha) e tudo ia bem (até certo ponto, porque Carrie resolveu lavar o guisado dentro do escorredor de massa e ele ficou assim meio pálido). Estranhamente no apartamento do vizinho, prédio à frente, luzes começaram a piscar seguindo uma certa cadência, muito rápida mas perceptivelmente formando seqüências (ou éramos nós perceptivelmente perturbados, sei lá). Nesse momento Barbie externou mais uma faceta de sua complexa personalidade. Num improvável acesso de sentimentalismo (ela não tem coração) sucumbiu a um choro nervoso com medo das luzes e já pensando que talvez fosse código morse e que seria melhor tentar saber o que se passava no vizinho. Idéia da qual foi demovida já que tinha de nos preparar o molho e, vizinho abduzido ou não, nós sim morreríamos de fome.
Carrie*, que até aquele momento não havia revelado toda a extensão de sua estranheza (e que apesar de tudo é psicóloga, essas meninas que estudam o comportamento humano acabam sempre assim, com egos fragmentados e também ótimas atrizes) já intercalava garfadas com teses sobre a fixação na fase oral, e, bem...o que temíamos aconteceu. Rapidamente ela passou à fase anal, e à relação das pessoas com seus dejetos e crianças que dão tchauzinho quando vêem os seus sendo engolidos pelo vaso, e etc. Um desconforto visivelmente se instalava, as porções alimentares esfriando no fundo dos prato e então percebi que se fazia necessária uma intervenção diplomática.
— "Meu irmão comeu o dele", eu disse, e enfim o jantar acabou.
*Ela ficou profundamente traumatizada porque sua mãe a obrigava a comer sob a ameaça de Julieta, a empregada-espantalho que era colocada ao seu lado na mesa com uma máscara de exu caveira. Mais tarde espectro nos revelaria que sua mãe também o ameaçava - ele tinha o hábito de ativar as bocas do fogão, deixar o gás invadir o apartamento e sair correndo. Até o dia em que encontrou a "guardiã do fogão", uma cabeça de galinha com a traquéia encaixada em um cabo de vassoura, de pezinho, esperando por ele na cozinha (precisamos reconhecer o gênio criativo dessa progenitora).
Como vêem, a personalidade dessas pessoas só podia ficar mesmo irremediavelmente comprometida pelos traumas.

Saturday, February 11, 2006

Teorias

Não, meninas. Eu não vou retirar o post "Tragédias".
Na verdade, as coisas só tendem a piorar.

Meu primeiro texto (sério) hoje foi sobre um lançamento da Edipucrs. O trabalho de um pesquisador a respeito da obra de Pierre Bordieu, coisa quase tão original quanto montar uma banda de rock na adolescência. O que me leva a pensar na verdadeira utilidade dos pesquisadores universitários, horas a fio teorizando sobre o que milhares de outros já passaram horas a fio teorizando e que, no fim das contas, pouca ou nenhuma diferença fará para a humanidade. O único resultado concreto dessas pesquisas todas é um relativo status, a ego-bolinação e uma bolsa de estudos paga no final do mês. Isso sem bater ponto, cumprir horários, essas coisas detestáveis da vida de operário.
Uma elegante categoria parasitária a qual pretendo aderir em breve.

Wednesday, February 08, 2006

No chão

Foi ontem, depois das 20h30min e de um dia de pensamentos intrusivos.
As mechas começaram a cair.
Ele não se empolgava muito, parecia com medo de cortar uma veia ou coisa assim.
E eu:
— Corta mais, moço.
— Mais.
— Mais.
As longas madeixas cor de caramelo caindo, no chão, uma depois da outra.
Se não pude cortar idéias fixas, alguma coisa eu precisava cortar.
Eu gostei.

Tuesday, February 07, 2006

ojos infinitos, olhos de tormenta

"De otro.
Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.
Ya no la quiero, es cierto, pero talvez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos, mi alma no se contenta con haberla perdido.
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."

Pablo Neruda


Qualquer pessoa pode viver muito bem com outra.
Desde que não a ame.

trash

Tentando driblar o tédio que consumia nossas almas nesse final de semana (feriado de Navegantes) nos reunimos para mais uma sessão de confraternização onde tudo pode acontecer, e dessa vez aconteceu mesmo. Eu e meus amigos Barbie mutante, espectro e Carrie, a estranha, preparamos uma sessão de "O dentista", um cult de Brian Yuzna. Filme rolando, o cara arrancando os dentes da esposa sem anestesia, enfiando um mega saca-rolhas na boca de outro, cortando línguas e jogando na piscina, etc...quando Carrie e espectro avistam "um vulto" da porta. O tal vulto, todo preto, passou na frente da casa, caminhou até metade da grade do portão, e então desapareceu no vácuo, e eis aí a polêmica toda. Sem encontrar explicações viáveis (talvez Barbie mutante tenha colocado ácido no estrogonofe que serviu, ou tenhamos cheirado umas meias mesmo) seguimos vendo o filme, mas a coisa toda desandou de vez. Carrie, que já é muito estranha, ficou mais estranha ainda. Surtou insistindo que tinha um caroço na axila, pra logo depois se descobrir tomada de caroços e com metástases por todo o corpo. À uma e meia da manhã, totalmente dominada pelo câncer, ela já sofria os efeitos de uma pesada quimioterapia. Espectro começou a olhar desconfiado para o peso de porta (aqueles tipo "pica de pano") em formato de Papai Noel. Sem cabeça. Prometeu uma reação enérgica ao menor movimento autônomo do objeto. No jardim de Barbie, descansando em um pé de arruda, nos espreitava um bicho cabeludo com cara de macaco (a natureza inventa coisas de muito mau gosto, consegue superar as ombreiras, a meia-manga e a boca de sino). Barbie então resolveu encaminhar a amiga Carrie à sua casa (ela sempre disse que preferia morrer em um ambiente familiar) e então, dentro do carro, no caminho, fomos envolvidos em uma nuvem de fumaça. No meio dela surge um velho (parecia a caveira de "Contos da Cripta"), dançando e bradando em volta de uma fogueira armada no meio da rua, coisa assim meio ritualística, com um cheiro esquisitíssimo. Não restou dúvidas de que se tratava de carne humana. Barbie mutante acelerou e em pouco tempo voltávamos, nos certificando, antes de dormir, de que a casa havia sido bem trancada para que o bicho cabeludo/macaco não tivesse por onde entrar (após a fase de crisálida, eles tomam forma e quem já viu "Invasores de corpos" consegue imaginar o risco).Por isso no domingo apelei para o coma induzido com 6mg, como já disse, no que acho que fiz muito bem.

Monday, February 06, 2006

Coma

Entrei em coma induzido nesse domingo, tudo dentro do meu plano de reunir todas as forças para invadir o Santander com um machado nessa segunda-feira. Lamentavelmente não foi necessário.
Antes disso passei por uma série de experiências bizarras na noite de sábado que devo narrar com detalhes em breve.

Thursday, February 02, 2006

Digna

Norman, meu gato (um felino dourado de médio porte), concorda plenamente. Está "temporariamente fora da área de serviço". Aliás, de qualquer área de serviço. Desde que conheceu Montserrat Caballé (e é um CD duplo, são árias e árias) passa horas deitado, lânguido, com o olhar perdido, no sofá. A única tragédia digna de sua atenção é Carmen. De Bizet.

Tragédias

Estávamos conversando ontem, eu e Barbie mutante, sobre o modo como as pessoas se alimentam de pequenas tragédias. O sofrimento, para alguns, dignifica mais que o próprio trabalho, "e se você ainda não tem o seu, corra, porque a promoção está acabando".
Acidente na rua, por exemplo, é televisão de pobre. Basta ter um pingo de sangue no chão que os abutres se reúnem e fazem a festa. A pobre vítima quase não consegue respirar, porque os miseráveis todos formam um cerco, talvez com medo que a atração fuja pra outro lugar, como circo que vai embora da cidade. Até preferem que morra, porque a notícia vai ser mais interessante e vai valer a pena chamar as comadres pra assistir também.
Já o repórter chega ao local da desgraça (as de enchente são clássicas) com aquelas perguntinhas dolorosas do tipo "e como vocês estão se sentindo", e certamente vai escolher a criatura mais horrorosa e com menos dentes que encontrar pra responder.
Outra questão...como meu pai já dizia (e eu pude comprovar), operário perde a unha e não vai trabalhar. Tem um ano inteiro, inclusive o período de férias, pra mandar o filho "distrair o dente do çiso" (entre outras tantas cirurgias importantíssimas e de alto risco) mas só levam ao dentista quando dá pra fazer um feriadinho. Se mandarem trabalhar mesmo assim, é porque o patrão é "coisa ruim"..."coitada, tá com o filho doente em casa e tem que viM trabalhar"...lembrando, ainda, que reality show de miserável (na favela todo mundo vê) é fazer filho. E mais filho. Ficam os ranhentinhos todos emparelhados, um a um, aquele tobogã de ranho. Uma maravilha. "A Jéssica, a Dienifer, a Suelen, o Dionatan, o Uochinton, o Uildison, e por aí vai. Se reproduzem como ratos, baratas. E nem é por inseminação artificial, porque esterilidade é coisa de rico.
Já gente velha (e isso só piora com o passar da idade) vai ao médico como vai ao banheiro, e no ritmo da incontinência urinária. Então quando se reúnem os cacos todos, é aquela competição mal-disfarçada, frases e olhares que oscilam entre o orgulho e o despeito. "Me caiu a alça do intestino" pra cá..."me atacou a gota de novo" pra lá...exame de próstata, câncer de reto, osteoporose, diabetes, hipertensão, e etc...um miserê, nada mais cafona e enfadonho.
Por isso que a mim só interessam as grandes tragédias.

Wednesday, February 01, 2006

Nostalgia

As mulheres entraram em surto coletivo. É um tal de jogar criança em lagoa, em vala, em garagem...nos Estados Unidos outra matou seis agentes do Correio (o serviço não devia ser dos melhores). A minha mãe insiste, desde que eu nasci, que me pegou na lata do lixo (história sempre confirmada pela minha irmã mais velha, por razões óbvias). Talvez essa ignorância a respeito das minhas origens explicasse um pouco da minha infância esquizóide. Mas eu lembro de alguns momentos ótimos do meu mundinho paralelo. Era fácil ser feliz simplesmente cozinhando uma deliciosa sopa de pedra, organizando visitas guiadas à minha exposição de insetos, na casa dos meus pais, degustando os ácidos e bases que vinham no Laboratório Químico para principiantes que ganhei da madrinha, depredando a construção de uma casa no lugar que eu julgava ser uma potencial futura sede para o meu clubinho. Enchendo a boca de comida, no jantar dos meus pais com convidados, e cuspindo de volta.
Quando aparecia um rato boiando na piscina, então, era uma festa! (Naquela época ainda alimentava aspirações a grande taxidermista internacional, que vieram antes dos delírios messiânicos). Também teve a tentativa frustrada de acender uma fogueira debaixo do carro (sempre a minha irmã me boicotando), o trem fantasma engembrado com a cadeira de rodas da minha tia e as primas menores vestidas de zumbi, o roubo de carrinhos de supermercado, hum...tantas coisas mais. Estou nostálgica hoje.
Talvez por isso as mães pensem duas vezes antes de criar um bebê.