Boeiros
A Feira do Livro nem bem começou e já penso em visitar a Praça da Alfândega com uma serra elétrica. Nem em um milhão de anos esqueceria a edição passada, quando o céu desabou de uma forma indescritível e voltei de lá no último dia, fazendo as matérias de encerramento, segurando as sandálias pela mão, cabelos e roupas encharcadas, calças arregaçadas e água até os joelhos. Água podre, claro, com todo o poder destrutivo que poderiam lhe conferir os boeiros do Centro. Suquinho de camundongo, licor de barata, seiva de banheiro público e algumas coisinhas mais naquele ensandecido córrego cor de cocô. O quadro da dor com a moldura do despespero. Entre as opções, seguir com a sandálias de salto nos pés e quebrá-los (os pés) pouco depois, provavelmente com fratura exposta, ou caminhar de pé descalço até o jornal me arriscando a cortá-los em um caco de vidro e contrair um estafilococo mutante que se alojaria no meu cérebro e se alimentaria do restante da massa cinzenta, se é que há. O que me pareceu mais interessante. De qualquer forma parece que a coisa pode ser um pouco mais divertida esse ano, já que até o cônsul do Japão, que é o país homenageado, está se encarregando de entrar no espírito da coisa. Apareceu na abertura da feira vestido de samurai. Ainda não revelou se até o final do evento estará arremessando estrelas-ninja nos visitantes, empoleirado num ipê-roxo, ou cometerá um haraquiri em frente à estátua do Mario Quintana. Talvez suma em meio a uma nuvem de fumaça, depois da sessão de autógrafos do Carpinejar ou do Luiz Coronel (aqui a probabilidade é grande). Começo a respeitar o cara.

