Friday, March 31, 2006

Devil's reject

Há tempos eu não passava por aqui pra elogiar alguma coisa, se é que algum dia eu o fiz. Mas depois dos últimos acontecimentos, incluindo hipnose, dominação e tortura, minha mente se abriu um pouquinho (mas vai fechar de novo já, já, com certeza) e resolvi deixar uma sugestão pros cinéfilos. "Rejeitados pelo diabo", do Rob Zombie, aquele que deixou a White Zombie pra ser diretor de uns filmes como esse e "A casa dos 1.000 corpos". Já definiram como "um faroeste mega-violento em ritmo de punk-rock". Pra mim, um filme sublime, poético, encantadoramente assustador. Se passa nos anos 70 e é sobre uma família de psicopatas sádicos que matam (depois de abusar sexualmente) umas 75 pessoas e enterram sob a casa, registrando tudo em fotografias organizadas em álbuns e mais álbuns. A mãe é uma prostituta velha, o pai, ou "Capitão Spaulding", um (ótimo) palhaço charlatão interpretado pelo picareta Sid Haig. Tem também a filha, Baby, vilã-piranha mas bonitinha (que na real é a Sheri Moon Zombie, mina do Rob Zombie), um filho que parece Jesus Cristo e outro todo deformado. Vários recursos de câmera, trilha sonora de primeira, tudo muito bem orquestrado, da cadência dos tiros à trajetória do sangue. Tortura e pedacinhos de cérebro no chão, com a suavidade de um fado. Excelente companhia para um prato de ravioli ao sugo na madrugada.

Monday, March 27, 2006

A aparição

Caros amigos,pra não dizer que faltou suavidade na introdução, vou avisando desde agora. Abaixo, quem vos fala é nosso famoso Espectro, o onipresente, a aparição, o vulto. Garanto-lhes que ajo, nesse momento, sob violenta coação; mantenho apenas os movimentos das mãos para que seja possível digitar o texto por ele ditado, e Barbie Mutante, também seqüestrada, está amarrada sobre a cama. Na verdade, foi uma reação severa às nossas ameaças de exposição pública (tentamos persuadí-lo a manter um contato, ainda que tímido, com outras pessoas, conhecidas como normais, ou seja, que não fazem parte do Movimento). O resultado foi catastrófico, uma surreal hecatombe de fúria, e jamais nos atreveremos novamente a pedir-lhe algo como gentilezas dirigidas a terceiros, ou quartos, ou quintos. Só nos quintos dos infernos, disse ele. Aqui me despeço.

"Vocês, criaturas bizarras, ao imaginarem que eu, enquanto divindade, trairia minhas convicções me prostituindo com o meio fétido, purulento e enfadonho que é o universo dos humanóides, seres inferiores, caíram na pior das blasfêmias. Não acreditei que seria necessário refrescar suas memórias pútridas, seus pequenos abcessos platinados, pústulas bípedes, mucras tísicas. Eu não gosto de nada e nem de ninguém, estou acima do bem, do mal, da vida e da morte. Apenas tolero a vocês duas porque ex-comungam da Minha Verdade, provar que é possível fazer nada sem saber fazer coisa nenhuma. As perdoarei pelo breve lapso apenas em reconhecimento à magnitude do figurino cedido, que enobreceu a imagem do Mestre, ou melhor, The New Messiah."

Saturday, March 25, 2006

Da elasticidade dos lençóis

Um pouco de recreação para os leitores. Nosso amigo Espectro achou que ficaria interessante com pelinhos cor-de-rosa, cinto de paetês e lenço de oncinha, e a foto, produzida por Satélite, Bebê de Rosemary e eu demonstra claramente a que nível de degradação um ser humano pode chegar. Mais novidades: Barbie Mutante Revoltada, que andava de fato revoltadíssima porque não consegue compreender a grandiosidade, extensão e objetivos do nosso projeto de expedições orientadas ao baixo Bronx (e a que grau se operam as modificações na vida das pessoas que se unem ao movimento) acaba de ser tornar minha flatmate, e, querendo ou não, agora será meio que obrigada a conviver com as diferenças. O estranho é que ela classifica como incompreensíveis e inúteis as nossas investidas (e possivelmente até sejam mesmo, eu absolutamente adoro a incompreensão e a inutilidade, amo muito tudo isso) mas, ao mesmo tempo, desfruta de agradáveis e lúdicos momentos no interior gaúcho envolvida em atividades como carnear porcos. Como eu sempre digo, o conceito de diversão é muito elástico. Ontem, por exemplo, aproveitei sua presença (na agora "nossa casa") para exibir um número que havia ensaiado para apresentar na de meus pais (sim, eu tenho, e são um homem e uma mulher, aparentemente convictos). Ocorre é que não estão achando muita graça nos meus espetáculos ultimamente; eu arriscaria a dizer mais, não estão achando graça nenhuma em nada do que eu faça, ou seja, estão cumprindo com seus papéis perfeitamente. Trata-se de uma musiquinha muito bonitinha que aprendi ontem no italiano, e é assim: "era una casa, molto carina, senza soffito, senza cucina...no se pottevo entraci dentro, perché non c'era il pavimento", e por aí vai. Em outras circunstâncias, ela teria para onde fugir. Mas agora não pode mais, porque escondo a sua chave e não há lençóis suficientes para amarrar e descer do sétimo andar ao térreo. Lençóis não são elásticos como a diversão, para desespero dela.

Tuesday, March 21, 2006

Luluzinha

"Tem gente que só é feliz com coisas que aparentemente não fazem ninguém feliz". A pérola é de "Sonho de valsa", um filme sem pé nem cabeça com a infame da Xuxa Lupes e uma aparição-relâmpago do Nei Matogrosso, novinho, com os dentes ainda mais separados. Claro que tudo ficou muito melhor quando ela agarrou um sapo à beira de uma lagoa suja e mordeu. Era feito daquelas borrachas trêmulas, mas por breves instantes parecia de verdade. Encerrou a degustação lembrando, em voz alta: "na vida a gente precisa engolir sapos", e a partir dali a Xuxa Lopes subiu no meu conceito.Vi uns pedacinhos ontem de madrugada, depois de uma excursão temática que o bebê me levou, abrindo o programa com um jantar de madames em benefício de uma organização internacional (às vezes ela tem essas recaídas e resolve fazer algo de útil pra não se sentir tão culpada, o que vai por água abaixo no exato momento em que começa a gritar e bater os pezinhos porque a sua mesa não é a melhor do salão, e isso é claramente uma enorme injustiça social). As luluzinhas chegaram emperiquitadíssimas, com litros de laquê na cabeça e quilos de reboco na cara. Tanta educação e civilidade começou a ruir quando o jantar foi liberado. Em longas mesas eram servidos pratos típicos de um total de dezoito países, e, acho que nem se o mundo tivesse uns 578 não seriam suficientes para a voracidade daquelas mulheres. Fiquei atrás esperando a minha vez e também que uma briga de garfos, facas e cabelos tivesse início e então, de fato, a diversão começasse. Torcendo para que o fogo dos réchauds incendiasse as toalhas e que a cortina do palco onde a primeira-dama cantaria o indefectível "Porto Alegre é demais" desabasse. Tem ambientes que causam transtornos às pessoas.

Romântica

Quando achamos que a festa ficaria por ali mesmo, eis que sobe ao palco um grupo daqueles formados por um ou dois que cantam (mal) e vinte e quatro que apenas se expõem ao ridículo, o que me leva a crer que há muito mais razão para a existência desses 24 que dos dois restantes. Pois os mocinhos se revezaram entre interpretações impagáveis de "New York, New York", com direito a moças de vestido de veludo (alguém pode me responder o que leva uma mulher a usar um vestido ou saia de ponta? E de veludo?). Teve também alemãezinhos com roupas e acessórios que também serviriam perfeitamente para ciganos e, eventualmente, italianos; bailarinos dançando flamenco em meio à música cubana; "La cucaracha"cantada ao berros; garotos usando aquele gorro peludo dos russos num calor senegalês. O show encerrou com bandinha alemã e as (ex)aspirantes a socialite se revezando em um impagável trenzinho em volta do salão e naquela brincadeira esdrúxula de armar uma casinha com os braços dados no ar e esperar que algum doente passe por baixo. Depois de tanta provação refrescamos a cabeça em uma tour pela Tuca, onde os presos abanavam camisetas pras namoradas, que passam a noite na calçada, do outro lado da rua, sonhando com o dia em que as grades do xadrez não mais representarão um obstáculo ao seu incomensurável amor. Estou romântica hoje.

Sunday, March 19, 2006

Intrusos

De fato, como previu Bebê, uns quinze minutos depois de usar o Mac passei a olhar com desdém para Bill Gates e suas estúpidas e prolixas janelinhas, além dos avisos de que "executou uma operação ilegal e será fechado, quer que envie relatório de erros?"
Sobre a aventura mundana da última quinta-feira, ainda sob o efeito da fumaça ritualística, posso dizer que não correspondeu às expectativas, já que a insuspeita receptividade das pessoas nos tirou o foco, afinal, nenhum de nós sai de casa esperando ser bem tratado. Muito pelo contrário; seguimos firmes no propósito de incitar a revolta, e confesso que isso tudo foi muito frustrante, só não acabou
pior porque usamos de toda a nossa criatividade e, no fim das contas, ainda ganhamos reforços na causa, cujo slogan passa a ser “provamos que é possível fazer nada sem saber fazer coisa nenhuma”*. Fora a recompensa de receber um elogio muito poético e inesquecível ("escreves como quem fala com a boca cheia de farofa", isso foi lindo), o único que obteve resultados realmente expressivos foi Espectro, que nunca mais será o mesmo depois da bunda da Saionara. Satélite fez as honras da casa nos introduzindo entre os “locais” e rezando baixinho para que agíssemos como pessoas normais. Em ocasiões assim, se não se pode vencê-los, junte-se a eles. Mais do que isso. Roube a festa deles, tome conta de suas mulheres, saqueie sua comida, monopolize sua dança e seu espaço. Da próxima vez não permitiremos intrusos na nossa festa. Distribuiremos pulseirinhas VIP e nos revezaremos entre a banda, o bar, o controle de caixa, banheiro, estacionamento e até do churrasquinho de gatos.

*Crédito: Espectro

Friday, March 17, 2006

Sacrifício

Depois de uma infecção generalizada, tumores e metástases, meu computador finalmente cumpriu a passagem. Não responde mais nem com o auxílio de aparelhos, e amanhã devo sacrificá-lo, acender umas velas e vestir preto em casa. Bebê de Rosemary promete me providenciar algo bizarro, como tudo o que diz respeito a ela, em breve. Disse que chama-se Macintosh, seja lá o que for isso, e desde que não morda estou feliz. Vou usá-lo para escrever aqui e dar forma ao roteiro de "Massacre no Botânico - Parte II", entre outras maravilhas.

Plano


OBS: isso já era pra constar aqui ontem, mas o blogger começou a dar umas babadas e desisti. O relato completo da experiência vem depois, quando eu me recuperar da catatonia. Poderia apenas adiantar que Espectro teve uma revelação ao se descobrir irremediavelmente seduzido por uma mãe-de-santo ("a bunda da Saionara me fez rever meus conceitos", disse ele). Eu, segundo ela, sou "mulher do vento", o que ainda não sei se é bom ou ruim. Até breve.

16/03/06 - O tempo era realmente curto e passou voando. De volta ao posto, após as férias, com o espírito de porco renovado. O grand finale da tragédia toda, depois de tirar oito tubos de sangue de manhã (perguntei à moça do laboratório se quem sabe não se tratava de uma sangria, recomendada por um médico sádico, ela respondeu com um sorrisinho confuso) foi virar a noite derradeira lendo "O doce veneno do escorpião" (claro que não me contive e, lá pela 50ª página "normal" violei o lacre das páginas negras para ler as "Histórias proibidas de Bruna Surfistinha"). Literatura de primeiríssima qualidade, sem falar que a primeira conclusão a qual ela chega, nas tais páginas, eu já sabia sem nunca ter compartilhado do métier. Mais uma prova de meus dons mediúnicos. Encerrada a leitura, tive a sorte de rever, por acaso, o clássico episódio "Obsessão do carrasco", no filme "Lendas do além-túmulo" ( "Tales from the crypt", no original). Passou ontem na TV, e é o que há, com aquela caveirinha divertida rogando pragas pro telespectador. É o que eu chamo de filme de arte; a gente dorme de alma lavada. Minhas aulas pela manhã começaram, na segunda e quarta, o que significa que qualquer remota possibilidade de diversão nas terças à noite acaba de ser extinta. Fora o fato de que um dia desses ainda terei de me dedicar à aquisição da tal Habilitação A, já que o pessoal do Detran parece que não anda muito inclinado a dar carteiras pras moças apenas mediante a exibição da dança da motinha. Suportei com razoável bom humor as gracinhas de colegas a respeito de minha bolsa-poodle cor de rosa e, à noite, mais uma incursão pelo submundo está prevista. Desta vez invadiremos, sem aviso prévio,o território de minha amiga Satélite, não porque tenhamos qualquer afinidade com o ritmo, o lugar, as pessoas, etc, afinal, como diz o nosso sábio amigo Espectro, "eu não gosto de nada e eu não gosto de ninguém", e esse é exatamente o caso aqui. Apenas (e somente por esse motivo) para tentar nos chocar com alguma coisa e testemunhar o terror naqueles grandes olhos castanhos. Sim, porque ela tem verdadeiro pânico de nos ver por lá (teme que a façamos passar vergonha, o que, de fato, é mais da metade do plano).

Tuesday, March 14, 2006

Façam de conta que é um link


Desisti de travar lutas contra a minha ilimitada ignorância em informática. Não consigo colocar os links ali do lado, no monstruário, recomendando blogs. Então vou botar aqui no meio mesmo e era isso, até que uma alma caridosa fique com pena e resolva dar uma mãozinha. www.bebederosemary.blogspot.com. Sangue e suor, sem lágrimas. Lendas urbanas e também aventuras reais de uma mini-sociopata à solta no baixo Bronx.

Estranhas ocupações

Talvez por alguma influência de “Histórias de cronópios e de famas”, meu livro favorito de meu escritor também favorito, Julio Cortazar (minha vida é dividida em A.C./D.C.) consigo encontrar um prazer indescritível em atividades deliciosamente inúteis e sem propósito algum. Entre elas, uma me fez lembrar do capítulo “Estranhas ocupações”, sobre uma bizarra família da calle Humboldt, em Buenos Aires, que se dedicava a coisas como construir um patíbulo no jardim de casa, chorar desesperadamente no enterro de um desconhecido (cuja própria família não tinha a intenção de derramar uma lágrima), instalar um pousa-tigres na mesa de jantar, arrebentar encanamentos de um prédio inteiro a fim de encontrar um fio de cabelo propositalmente largado no ralo do banheiro com um nó no meio, o que, no glorioso momento da recuperação, o diferenciaria dos demais milhões de fios. Pois bem. Na impossibilidade de realizar algo assim tão grandioso me viro como posso. Então em um sábado ensolarado, depois de dormir quatro horas na virada de sexta para sábado (um recorde, me senti extremamente relaxada e disposta) resolvi acompanhar meu amigo Espectro a algo que eu classificaria, ao menos para os meus hábitos, como inusitado. Fui ao tal curso de preparação para o Batismo, em uma igreja de outra cidade, onde eu não conhecia quase ninguém, e isso inclui a criança em questão. Só sei que o coitadinho é filho do Seco, outro perturbado em grau ainda mais severo porque insiste em espalhar gens por aí. Achei ótimo porque poderia também exibir o visual exótico com que acordei naquele dia, depois de dormir em cima da costura do travesseiro e acordar com uma imitação perfeita de cicatriz que atravessava o olho perpendicularmente, de cima a baixo. A irmãzinha do Navalhada. Espectro, o padrinho, pediu insistentemente que o acompanhasse até a igreja, local onde ele, ateu convicto e raivoso, além de pessoa muito sensível e dramática que é, certamente teria sintomas estranhos, sem descartar uma possível possessão e a necessidade de um exorcista, camisa-de-força, tranqüilizantes, tradutor de aramaico, essas coisas. Não quis entrar em detalhes quando tivemos de nos apresentar para o grupo, preferi dizer apenas que era só “acompanhante”, torcendo pra que isso não fosse mal interpretado.

A conversão

Não demorou muito e começou a papagaiada toda, aquele senta e levanta dos infernos (é só uma expressão; a crença na existência do inferno pressupõe crença na existência de um céu, e aí mentiu pro tio, né) e logo depois sempre vem algo melhor ainda, tipo um juca assexuado tocando violão e cantando umas musiquinhas miseráveis. Claro que não escaparíamos dessa, e subitamente comecei a achar aquilo tudo muito divertido e resolvi demonstrar minha aptidão natural para o catolicismo entoando, primeiro timidamente, depois a plenos pulmões, “estamos aquiiiiiii....só pra louvar o senhooooor” e enquanto isso Espectro revirava os olhos como Linda Blair em plena possessão no “Exorcista”, parando unicamente pra praguejar, entredentes, contra o Seco. Então era “Estamos aquiii”... “tu me paga desgraçado”...”Só pra louvar o senhoooor”... “e caro. A tua hora vai chegar”...”Novamente aquiiiii”...e eu me mantinha firme, afinadíssima com o grupo Cenáculo de Maria, que até se impressionou com meu conhecimento sobre os sacramentos – fiz questão de responder (e o fiz corretamente) sobre batismo, eucaristia, matrimônio, extrema unção, etc... Enfim Espectro desistiu de praguejar e resolveu resgatar um dos sucessos de sua banda, composição própria: “Jesuuus...que legal você aí na cruuuz”...e os crentes todos seguiam na cantoria, imperturbáveis que ficam naquele estado de transe. Nem as meninas do Cenáculo, a maioria casadas, pareceram se importar com as investidas de Espectro, que tratou de abstrair a situação alugando as orelhas das fiéis com gracinhas de gosto discutível, e duvido até que não tenha aproveitado as orações de mãos dadas pra bolinar os dedinhos de alguma ovelha menos ortodoxa. Depois rezaram mais algumas vezes e passaram àquelas pantomimas todas de óleo, vela, genuflexão, água na cabeça, etc...(que é a parte que acho mais bacana, os rituais) sem fugir ao modus operandi tão clássico dos carolas que é fazer perguntinhas estúpidas e querer que o grupo responda em uníssono como retardados de primeira série, e quando não respondíamos obviamente sempre havia uma engraçadinha pra dizer “ah, acho que eles não comeram feijão hoje”. E eu acho que consegui definir em que momento é plantada a revolta que erupciona na adolescência, junto com a acne.

Friday, March 10, 2006

Cegos

Hããã...em meio às minhas maravilhosas férias em que metade do tempo passei prostrada, me recuperando da bronquite, rinite, sinusite, gastrite, enfim, quase todos os ites possíveis, encontro forças para levantar da cova (a revolta tem incomensuráveis poderes sobre mim) e vir escrever a fim de registrar o meu profundo aborrecimento e indignação. Certo que o Brasil é o paraíso da impunidade, mas minha crença na justiça e no restabelecimento de algum - qualquer um - indício que torne legítima a premissa de que o ser humano se diferencia dos demais pelo uso da razão pode vir abaixo, definitivamente, caso sujeitinhos como Stédile e sua corja de arruaceiros se safem depois do desaforo, da aberração, da bestialidade cometida pela Via Campesina (leia-se MST) essa semana. Ato, acima de tudo, de profunda ignorância, já que as mudas geneticamente modificadas (e destruídas pelos vândalos) faziam parte de um estudo que visava justamente reduzir as áreas de plantio do eucalipto. “Um tiro no pé”, conforme o pesquisador Aurélio Aguiar. De total desrespeito, desumanidade mesmo, com o trabalho dos pesquisadores, cujo resultado pode influir positivamente sobre o desenvolvimento da região, já que não representa apenas os objetivos de uma empresa, mas sim, interesses do Estado. Um contra-senso, já que não se tratava de área improdutiva. Um risco, já que o investimento de 1,2 bilhão de dólares previsto pela empresa pode ir pras cucuias. Isso sem falar na geração de empregos. De quebra, essas criaturas de incrível sagacidade e senso estratégico conquistaram, enfim, o repúdio massivo da sociedade, que felizmente ainda não compactua com a substituição do diálogo pelo crime. Tão incrível quanto a atuação da Brigada Militar e da Polícia Federal, subitamente cega (!) para, nada mais, nada menos, que 40 ônibus transportando os primatas pela BR 116. David Copperfield deve ter colaborado com essa ação. Ou são todos parentes do nosso presidente, que nada vê, nada ouve e nada sabe.

Thursday, March 02, 2006



Carnaval dos horrores no Beco da amargura. O quadro da dor com a moldura do desespero.
Acima, algo como um dos melhores momentos.

Wednesday, March 01, 2006

Eu odeio Carnaval - Parte I


A saga de Bebê de Rosemary, Espectro, Satélite Abduzido e Eu

Ok Satélite, estava devendo essa, minha versão sobre a única noite de um horroroso Carnaval em Porto Alegre em que nos atrevemos a sair da garrafa e colocar as caras na rua, ainda que eu, muito providencialmente, tenha me fantasiado um pouco. Claro que a intenção, desde o início, era a catarse, e todos nós sabíamos que a experiência poderia deixar seqüelas nos mais impressionáveis. Pois bem. Alguns por falta de opção, outros por imposição do trabalho, outros por claros desvios de comportamento mesmo, ficaram em Porto Alegre nesse feriado de Carnaval. Cá estava eu, inserida no segundo grupo, até porque minhas férias começam oficialmente hoje, ainda que eu tenha me despedido aqui antecipadamente (estive fazendo o gênero “me deixem só”; acho que todos devem fazer de vez em quando, aconselho). Então unimos forças em torno de um objetivo maior, que era esquecer dessas coisas trágicas que acontecem na vida de uma pessoa e a levam a...tipo...passar o Carnaval em Porto Alegre. Saímos eu, Bebê de Rosemary, Espectro, Satélite Abduzido e Rodrigo (amigo de Bebê e que até então não demonstrou suas potencialidades, por isso esse nome tão estranho) em busca da tal junção intitulada “Eu odeio Carnaval”, uma coisa meio sem definição que acontecia até o ano passado no Osho e agora passou a reunir celebridades do esgoto no tal do "Beco 203". Digo esgoto porque estou boazinha hoje, já que o local contava com mini-cascata brotando do vaso sanitário no banheiro (com aquelas cordinhas de puxar enceradas e escuras de tanta gosma vinda sei lá de onde, e é melhor nem pensar), poças d'água que lembravam bacias hidrográficas nos corredores, sofás cabeludos, ambientes aromatizados com um pout-pourri de urina de gatos com mofo e nenhum aparato para purificação do ar, ou seja, os olhos ardem e não é como se tomassem fumaça de cigarro, e sim, como se eles mesmos fumassem. Devidamente ambientados tomamos nossos lugares em uma mesa perto da janela, que permanece hermeticamente fechada 365 dias por ano. Espectro titubeou milhares, milhões de vezes até aceitar a introdução no recinto, e, ainda assim, o ouvimos relinchando por uns 15 ou 20 minutos. Depois lembrou de uma mímica que poderia fazer na tentativa de chamar a atenção de alguma mulher no bar (isto é... se achasse uma no sentido bíblico, porque até então só havia lésbicas; Bebê foi alvo de carícias e Satélite, caso quisesse, sairia casada de lá). Ficamos nos divertindo com um truque bacana que parece separar as articulações do dedo, como ele se fosse decepado (fica perfeito) e pensando que teria sido melhor ainda se tivéssemos trazido uns dedos de borracha da lojinha do Tony Mágicas para arremessar contra aqueles simulacros de alternativos (até porque alternativos de verdade, no meu entender, tem personalidade própria e inclusive se vestem de acordo com ela). Mas ali os alternativos são todos iguais, dos pés a cabeça, e então, no fim das contas, alternativos éramos nós. O resto era puro embuste.


Eu odeio Carnaval - Parte II


Ficamos como retardados gravando a mágica do dedo no celular, assistindo o DVD da Madonna vinte vezes (talvez o bar só tivesse aquele) como um LP arranhado e discutindo sobre a possibilidade de deixar Walter Mercado em paz e assumir eu mesma como Reverenda Sun, arquétipo feminino do Reverendo Moon frente à seita que ainda nos fará milionários. Nisso Satélite entrou em transe e começou a repetir o mantra “eu quero ejacular daqui, eu quero ejacular daqui, eu quero ejacular daqui”. Eu já previa que alguém teria a sensibilidade excessivamente afetada por aquele ambiente. Bar lotado com as autênticas criaturas dos becos (acho que nem entram pelas portas, e sim por tubos subterrâneos de escoamento) e resolvemos descer para conferir o núcleo, talvez prender fogo no alien-mãe. No que se propunha a ser pista de dança uma DJ branquela com bracinhos magros e tatuados tocava coisas esquisitíssimas. Até que resolvemos entrar no clima – tá no inferno abraça o capeta – e dançar “Kalifornia Überalles”, do Dead Kennedys, coisa da minha adolescência, eu até tinha aquele disco que era todo branco. Em momentos assim gosto de imaginar que estou sob o efeito de alguma coisa como um mescalina ou Santo Daime, e, ainda que jamais vá colocar nada disso na boca, meu poder de auto-sugestão é tão forte que em geral dá resultado e consigo me transportar para outras dimensões. “As portas da percepção”, sem aditivos. Just drinks. Ou talvez a ajudinha de uma entidade obscura também. Então Bebê de Rosemary, do alto de seus 1,51cm (não mais do que isso) começou a dançar sacudindo a cabeça e chutando o piso como num misto de performance punk com surto epilético, e bradávamos com os braços levantados como quem saúda um führer em pleno Reich. Espectro, que até então acreditávamos ser um reles ex- vocalista de banda de heavy metal, coisa comum, exibiu sua verdadeira aptidão, que consiste em emitir sons guturais da garganta a partir da vibração da “campainha” (ou úvula para os preciosistas), aquela carninha que fica pendurada no começo da garganta. Coisa que demanda muitos anos de estudo e dedicação e que não é pra qualquer um, ou ao menos, pra qualquer goela. Algo assim: “GGGRRRRRRRRRRROOOOOOOOOOOOOOOO”, só que por mais tempo. Tocava Pantera, Espectro urrava como um King Kong com tumor no cérebro, Bebê pulava agitando freneticamente os bracinhos e sugerindo que fosse arremessada em um mosh, como nos shows de rock. Eu resolvi acompanhar Espectro e resgatei momentos mágicos do início de minha vida adulta, quando produzia rosnados de tiranossauro idênticos aos do Elo Perdido até quase sumir a voz, para desespero de minha pobre mãe. Nesse meio tempo a pista de dança era sutilmente evacuada, King Kong e tiranossaurus rex em êxtase. Rodrigo permanecia em choque, colado na parede, sem ousar avanços. Satélite, estática, com o olhar perdido, repetia “ejacular, ejacular” como um robô e foi brindada por uma chuva de neve artificial que vinha do spray de uma garota (?) vestida de diabo. Naquele ponto já não se sabia mais o que era realidade e o que era imaginação. O fato é que avacalhamos a festa e Espectro já colecionava fãs (todos homens, e “bem fornidos”) e não achou isso propriamente divertido. Na hora de sair ainda passamos por mais um recinto da casa, um fumoir só de cannabis, cujo cheiro impregnava até as cortinas. "Foi um excelente Carnaval", pensei, satisfeita por mais uma constatação positiva a meu respeito. Eu vejo tudo o que eles vêem sem isso. Mais até. A bênção da auto-suficiência. Nada contra os maconheiros, antes dó que desprezo ou nojo. Questão de Q.I.