Wednesday, March 01, 2006

Eu odeio Carnaval - Parte II


Ficamos como retardados gravando a mágica do dedo no celular, assistindo o DVD da Madonna vinte vezes (talvez o bar só tivesse aquele) como um LP arranhado e discutindo sobre a possibilidade de deixar Walter Mercado em paz e assumir eu mesma como Reverenda Sun, arquétipo feminino do Reverendo Moon frente à seita que ainda nos fará milionários. Nisso Satélite entrou em transe e começou a repetir o mantra “eu quero ejacular daqui, eu quero ejacular daqui, eu quero ejacular daqui”. Eu já previa que alguém teria a sensibilidade excessivamente afetada por aquele ambiente. Bar lotado com as autênticas criaturas dos becos (acho que nem entram pelas portas, e sim por tubos subterrâneos de escoamento) e resolvemos descer para conferir o núcleo, talvez prender fogo no alien-mãe. No que se propunha a ser pista de dança uma DJ branquela com bracinhos magros e tatuados tocava coisas esquisitíssimas. Até que resolvemos entrar no clima – tá no inferno abraça o capeta – e dançar “Kalifornia Überalles”, do Dead Kennedys, coisa da minha adolescência, eu até tinha aquele disco que era todo branco. Em momentos assim gosto de imaginar que estou sob o efeito de alguma coisa como um mescalina ou Santo Daime, e, ainda que jamais vá colocar nada disso na boca, meu poder de auto-sugestão é tão forte que em geral dá resultado e consigo me transportar para outras dimensões. “As portas da percepção”, sem aditivos. Just drinks. Ou talvez a ajudinha de uma entidade obscura também. Então Bebê de Rosemary, do alto de seus 1,51cm (não mais do que isso) começou a dançar sacudindo a cabeça e chutando o piso como num misto de performance punk com surto epilético, e bradávamos com os braços levantados como quem saúda um führer em pleno Reich. Espectro, que até então acreditávamos ser um reles ex- vocalista de banda de heavy metal, coisa comum, exibiu sua verdadeira aptidão, que consiste em emitir sons guturais da garganta a partir da vibração da “campainha” (ou úvula para os preciosistas), aquela carninha que fica pendurada no começo da garganta. Coisa que demanda muitos anos de estudo e dedicação e que não é pra qualquer um, ou ao menos, pra qualquer goela. Algo assim: “GGGRRRRRRRRRRROOOOOOOOOOOOOOOO”, só que por mais tempo. Tocava Pantera, Espectro urrava como um King Kong com tumor no cérebro, Bebê pulava agitando freneticamente os bracinhos e sugerindo que fosse arremessada em um mosh, como nos shows de rock. Eu resolvi acompanhar Espectro e resgatei momentos mágicos do início de minha vida adulta, quando produzia rosnados de tiranossauro idênticos aos do Elo Perdido até quase sumir a voz, para desespero de minha pobre mãe. Nesse meio tempo a pista de dança era sutilmente evacuada, King Kong e tiranossaurus rex em êxtase. Rodrigo permanecia em choque, colado na parede, sem ousar avanços. Satélite, estática, com o olhar perdido, repetia “ejacular, ejacular” como um robô e foi brindada por uma chuva de neve artificial que vinha do spray de uma garota (?) vestida de diabo. Naquele ponto já não se sabia mais o que era realidade e o que era imaginação. O fato é que avacalhamos a festa e Espectro já colecionava fãs (todos homens, e “bem fornidos”) e não achou isso propriamente divertido. Na hora de sair ainda passamos por mais um recinto da casa, um fumoir só de cannabis, cujo cheiro impregnava até as cortinas. "Foi um excelente Carnaval", pensei, satisfeita por mais uma constatação positiva a meu respeito. Eu vejo tudo o que eles vêem sem isso. Mais até. A bênção da auto-suficiência. Nada contra os maconheiros, antes dó que desprezo ou nojo. Questão de Q.I.

2 Comments:

Blogger sateliteabduzido.blogspot.com said...

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Thursday, March 02, 2006

 
Blogger sateliteabduzido.blogspot.com said...

Esqueci de comentar da gaguice de vídeo da Madonna, da vertente do vaso sanitário e do mofo...Muito bem lembrado Noiva... Só de lembrar eu começo a ris com o Espectro dando uma de Pavaroti dos Horrores rsrs

Thursday, March 02, 2006

 

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