Cuícas
Eu e Bebê de Rosemary perdemos definitivamente a vergonha na cara e rumamos, ontem, para o estúdio de gravação. Espectro, travestido de Dr. Ghory, abriu os trabalhos e nos rendeu boas gargalhadas fazendo o ronks (tipo um rosnado, mas na verdade não há como explicar em palavras, ao menos não em poucas) enquanto enchíamos a cara de cerveja e observávamos pela janelinha de vidro o quão ridículo um ser humano pode se tornar caso alguém lhe acene com a mais remota possibilidade de algum prestígio. Não importa onde e nem por quê. Certamente que é muito melhor ficar do lado de fora olhando uma criatura guinchar e se sacudir violentamente sem a menor noção da própria voz do que estar lá dentro, ouvindo só o pancadão direto nos fones e imaginando o que deve estar saindo do outro lado e que é tão...tão...tão...engraçado. Sinceramente parecíamos duas cuícas - desafinadas - cantando duas de nossas músicas, uma que inclusive ganhou solo de guitarra de um daqueles caras que a gente idolatra quando é adolescente e, quando ficam velhos, perdem a noção do ridículo e começam a pagar vale. Do tipo fazer um solo de guitarra para uma música composta por alguém como eu. Não sabemos até que ponto o produtor gostou de verdade ou até que ponto ele é realmente nosso amigo e concluiu que era melhor não encarar os possíveis efeitos da rejeição em alguém como Espectro, por exemplo. Mas de uma coisa temos certeza: o cachorro gostou. É um boxer branco que vive na produtora e passou a noite fornicando com as pernas do nosso MC. Bem, vozes gravadas, bases prontas, samplers definidos, agora é só transformar a "Tocata de Brahms em si bemol" em "Tocada de bronha em fudemol", com letra assinada por Espectro, e aguardar pela agenda de shows internacionais ou...usar a gravação como instrumento de tortura, o que talvez até seja melhor. De volta pra casa que não é minha passei meia hora grudada no interfone do apartamento errado tentando fazer Re-animator acordar, de madrugada (agora eu sou uma artista e as pessoas têm que entender. Devo preferencialmente voltar bêbada todas as noites e de todos os lugares, arranjar umas confusões, promover gritarias em surtos maníaco-depressivos e ser antipática. Não será difícil). Como não tenho muita sorte, a vizinha em questão é surda. E como a vida continua e o estrelato ainda não veio, plantamos bromélias hoje de manhã. Tédio na alma.



