Tuesday, June 13, 2006

Silêncio


No Dia Nacional da Vagabundagem, o retrato do mau-gosto e da desolação.
Uma coisa boa ao menos (além da vitória, e pra mim até mais importante):
o telefone não tocou por inacreditáveis 90 minutos.

Monday, June 12, 2006

Estufa

Resolvi adotar a linha de pensamento do sábio Bebê de Rosemary e imaginar que todas as pessoas que passam pelas ruas hoje com buquês de flores, na verdade, vão ao cemitério. Essa é a quinta ou sexta vez que penso seriamente em implodir esse blog - ainda mais na proximidade de datas potencialmente destrutivas como essa - e não consigo. Encontro minha madrinha em um aniversário e ela imediatamente diz: "tu não andas escrevendo mais". O que me choca um bocado, não porque não tenha escrito mais nada que preste ultimamente, mas sim, porque alguém ainda lê. E da família. Raros lampejos de vergonha na cara. Bem, estou aqui com meu dry martini pensando na vida, com alguns deja-vus. Tive um sábado catastrófico em que a única coisa que se salvou foi o mocotó com ovo que comi às quatro da manhã. Ainda bem que Barbie mutante me apresentou Calamity Jane, uma moça bacana, ainda que um tanto esquisita. Ela jura que nos odeia pelas nossas "pernas-palito", mas não se faz de rogada quando o assunto é ajudar as amigas. Da lavagem de louça à baixa feitiçaria. Diz ela que é 'meio bruxa'; eu diria que é uma completa macumbeira. Pois ela soube que eu andava enfrentando problemas com pesadelos e tal, e me aconselhou a dormir com uma tesoura e um pentagrama debaixo do travesseiro, o que imediatamente acatei. Desde então tenho mesmo dormido tranqüilamente, e se a magia não tiver realmente algum fundamento ao menos estou armada, o que já me faz sentir infinitamente melhor. No domingo me dediquei à visitação de cactários, bromeliários e a um curso-relâmpago de plantas medicinais, seguindo minha conhecida determinação de me entregar apaixonadamente a tudo o que for inútil, além de acompanhar minha mãe em seus surtos de histeria fitoterápica. Descobri que comer confrei (o que muito fiz na minha infância, naquela fase xamânica que já citei aqui) definitivamente não me abriria as portas da percepção. Quando muito, me levaria ao câncer de fígado. Começo a repensar a minha pretensa vocação xamânica. Minha mãe apostava que eu me identificaria demais no serpentário. Coitada, perdeu mesmo a noção das coisas. Mais tarde, com as bromélias e cactus, aí sim, me senti acolhida, entre os meus, no silêncio frio dos balcões de pedra, aqueles seres impassíveis com eterno ar de "me deixem só", alguns bem do jeito que imagino que eu seria, com silhuetas do tipo leptossômico, elegantes, altivos. Outros com cara de fêmea atarracada, pequenas, gorduchinhas, parecendo portadoras de síndrome de Turner. Enfim, todos muito familiares e acolhedores, tenho certeza que em pouco tempo eu estaria absolutamente ambientada, enturmada, envolvida em trocas afetivas profundamente sólidas. Inclusive já estou considerando a idéia de pegar meu travesseiro, cobertor, tesoura e pentagrama e passar as noites na estufa, sob a luz da lua.

Thursday, June 01, 2006

Picolé de chuchu

Pedro Eugênio esteve impossível hoje. Fui pronta para me refestelar no divã, falar de todos os males que corróem a minha alma, consumir toda a caixinha de kleenex e sair inchada como quem tomou uma frigideira na lata, mas não adianta, ele não me dá chance. Então lá fui eu, tratar Pedro Eugênio, esparramado em sua hiper-ultra-mega poltrona de couro preta absolutamente reclinável, com sua expressão de empáfia, cabelos grisalhos e gola rolê. Um óbvio caso de hiperatividade com traços megalomaníacos, um psiquiatra que fala mais - muito mais - do que o paciente. Quando ia lhe relatar sobre a insistente dor de cabeça que me faz pensar em um milhão de agulhas cravando simultaneamente no meu crânio, sobre a minha certeza de que se trata de um tumor cerebral provavelmente inoperável e sobre o meu medo de, em breve, sucumbir às alucinações olfativas e visuais, à epilepsia, desmaios e subseqüente comprometimento dos sentidos, ele me interrompeu. Estendeu uma requisição de radiografia de crânio e fossas nasais e passou ao assunto que, no momento, lhe parecia infinitamente mais interessante. A prostituição inverossímel da Bruna Surfistinha. Diz ele que em geral nada de criativo ou interessante é produzido pelos filhos adotivos, e que, comprovando essa tese, Bruna Surfistinha não é uma "gostosa" (ele adora essa palavra), e sim "tão excitante quanto um picolé de chuchu". Por falta de identificação ("iden"=igual "entificação"=ente) com a figura dos pais o corpo que ela prostitui não encontra referenciais significativos; portanto, não é uma prostituição genuína, consciente, resoluta, e sim uma comercialização vazia, inconsistente e sem paixão de um corpo despersonalizado, que não "pertence" a ninguém, nem a ela mesma. E etc, etc, etc. Acho que Pedro Eugênio estava completamente tarado, descontrolado, fora de si. Encerrou com um mini-compêndio sobre as fixações sexuais masculinas e bizarras práticas masturbatórias. Fiquei ouvindo com cara de paisagem e sentindo meu tumor correndo dentro do cérebro, tentando fugir pelas orelhas ou pelo nariz.