Thursday, February 02, 2006

Tragédias

Estávamos conversando ontem, eu e Barbie mutante, sobre o modo como as pessoas se alimentam de pequenas tragédias. O sofrimento, para alguns, dignifica mais que o próprio trabalho, "e se você ainda não tem o seu, corra, porque a promoção está acabando".
Acidente na rua, por exemplo, é televisão de pobre. Basta ter um pingo de sangue no chão que os abutres se reúnem e fazem a festa. A pobre vítima quase não consegue respirar, porque os miseráveis todos formam um cerco, talvez com medo que a atração fuja pra outro lugar, como circo que vai embora da cidade. Até preferem que morra, porque a notícia vai ser mais interessante e vai valer a pena chamar as comadres pra assistir também.
Já o repórter chega ao local da desgraça (as de enchente são clássicas) com aquelas perguntinhas dolorosas do tipo "e como vocês estão se sentindo", e certamente vai escolher a criatura mais horrorosa e com menos dentes que encontrar pra responder.
Outra questão...como meu pai já dizia (e eu pude comprovar), operário perde a unha e não vai trabalhar. Tem um ano inteiro, inclusive o período de férias, pra mandar o filho "distrair o dente do çiso" (entre outras tantas cirurgias importantíssimas e de alto risco) mas só levam ao dentista quando dá pra fazer um feriadinho. Se mandarem trabalhar mesmo assim, é porque o patrão é "coisa ruim"..."coitada, tá com o filho doente em casa e tem que viM trabalhar"...lembrando, ainda, que reality show de miserável (na favela todo mundo vê) é fazer filho. E mais filho. Ficam os ranhentinhos todos emparelhados, um a um, aquele tobogã de ranho. Uma maravilha. "A Jéssica, a Dienifer, a Suelen, o Dionatan, o Uochinton, o Uildison, e por aí vai. Se reproduzem como ratos, baratas. E nem é por inseminação artificial, porque esterilidade é coisa de rico.
Já gente velha (e isso só piora com o passar da idade) vai ao médico como vai ao banheiro, e no ritmo da incontinência urinária. Então quando se reúnem os cacos todos, é aquela competição mal-disfarçada, frases e olhares que oscilam entre o orgulho e o despeito. "Me caiu a alça do intestino" pra cá..."me atacou a gota de novo" pra lá...exame de próstata, câncer de reto, osteoporose, diabetes, hipertensão, e etc...um miserê, nada mais cafona e enfadonho.
Por isso que a mim só interessam as grandes tragédias.

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